Nesta quinta (19) e sexta-feira (20), o Hospital Ibiapaba CEBAMS foi destaque no programa Contato Direto, da Rádio Sucesso, em Barbacena. Representando o corpo clínico da instituição, o médico geriatra Dr. Carlos Fernando participou de uma entrevista especial sobre a campanha Fevereiro Roxo, reforçando a importância do diagnóstico precoce e do tratamento adequado para proporcionar mais qualidade de vida aos pacientes diagnosticados com Doença de Alzheimer.
Confira a entrevista completa:
Qual a diferença entre o esquecimento comum do envelhecimento e os sinais iniciais do Alzheimer?
Dr. Carlos Fernando: É normal, com o passar da idade, à medida que as pessoas envelhecem, que elas tenham alguns lapsos de memória, algumas falhas de memória. Isso porque o cérebro, como qualquer órgão, envelhece também junto com o corpo. Então, é normal as pessoas, às vezes, se esquecerem dos nomes dos outros, às vezes se esquecerem do que iam fazer quando se levantam para fazer alguma tarefa, fazer alguma coisa. No meio do caminho, pensam: o que eu fui fazer mesmo? O que eu estou fazendo aqui? Às vezes, não sabem onde colocaram o objeto. Esse é o esquecimento que a gente chama de esquecimento normal. A diferença do esquecimento normal para a demência, que é o que acontece na doença de Alzheimer, é a perda da capacidade funcional. A pessoa não vai conseguindo mais fazer coisas que ela conseguia fazer antes. A demência, a doença de Alzheimer, é caracterizada por uma perda que a gente chama de perda funcional. A pessoa não consegue mais sair sozinha, não consegue usar um telefone, não consegue anotar um recado, preparar uma refeição, tomar seus medicamentos por conta própria, deixa de acompanhar um programa de televisão, não consegue mais assistir a um jornal e compreender bem, assistir a um capítulo de novela, então ela vai abandonando suas atividades de vida diária. Isso, então, é uma característica maior. E essa deficiência funcional vai aumentando com o tempo. Isso é a diferença de um esquecimento normal, que não compromete a funcionalidade de um indivíduo, e o esquecimento causado por uma doença.
Por se tratar de algo que pode ser hereditário, como as pessoas que têm casos na família podem começar a se proteger do Alzheimer?
Dr. Carlos Fernando: Existe muito essa preocupação, né? Pessoas que têm casos na família, que o avô, o pai, um tio tiveram doença de Alzheimer, a pessoa fica preocupada. Será que eu vou ter também? Existe, sim, um componente genético na doença de Alzheimer. Esse componente genético já é comprovado na doença de início recente, aquelas pessoas que adoecem antes dos 70 anos. Então, quem tem familiares que começaram a apresentar a doença de Alzheimer mais cedo, antes dos 70 anos, tem mais risco genético. Já aquelas pessoas cujos familiares tiveram a doença depois dos 75 anos, já mais idosos, o risco genético é menor. Então, o risco genético da doença de Alzheimer já é comprovado naqueles casos de doença de início precoce, de início mais cedo na vida. Não existe uma proteção garantida de que a pessoa não vai ter doença de Alzheimer. Não, nós não temos ainda como fazer isso, evitar que a pessoa tenha a doença. Mas nós conseguimos evitar que a doença cause mais prejuízo. As pessoas que praticam mais atividade física, que têm mais complexidade na sua profissão, trabalham com tarefas mais complexas, pessoas que promovem na sua vida muito investimento intelectual, essas pessoas têm menos chance de ter prejuízo com a doença. O prejuízo que a doença provoca vai ser mais tardio, vai ser menos sentido. Então, o que a pessoa pode construir é uma reserva cerebral e, dessa reserva cerebral, o investimento intelectual, principalmente no trabalho, e a atividade física são os principais protetores. Não existe remédio para proteger contra Alzheimer, remédio para memória, remédio para o cérebro; nenhum medicamento tem comprovação de eficiência para evitar a doença de Alzheimer. É mais mesmo um investimento pessoal para aumentar a reserva cerebral que faz com que a doença seja menos agressiva para a pessoa.
Em que momento a família deve procurar um médico?
Dr. Carlos Fernando: O momento que a família deve procurar um médico é quando perceber que aquela pessoa idosa está deixando de fazer o que fazia, está cometendo erros. Um sinal interessante de que a doença de Alzheimer pode estar começando, é a repetição, quando a pessoa pergunta várias vezes a mesma coisa, conta várias vezes o mesmo caso, se perde, às vezes, em ambientes conhecidos, isso além do esquecimento. O esquecimento é a principal alteração, é a principal coisa que deve fazer com que as pessoas procurem assistência médica. Às vezes, o médico vai ajudar a saber se esse esquecimento é uma coisa normal ou uma coisa causada pela doença, mas, quando além do esquecimento existem as alterações de comportamento ou as alterações funcionais, aí é obrigatório que esse indivíduo seja avaliado.
Como é feito o diagnóstico da doença?
Dr. Carlos Fernando: O diagnóstico é principalmente clínico, baseado na história da pessoa. Na história do esquecimento, no depoimento do paciente e, muito importante, na informação da família, na informação dos acompanhantes, dos cuidadores. Essas pessoas vão perceber mais os problemas ligados à doença do que o próprio indivíduo. A pessoa mesmo, às vezes, não sente as suas deficiências, ela nega e não percebe que está cometendo erros, que está falhando na sua funcionalidade e que a sua memória está ficando com deficiência. As pessoas em volta percebem mais. O esquecimento percebido por parentes, por acompanhantes, é mais importante do que aquele esquecimento percebido pela própria pessoa. E, quando a própria pessoa relata o seu esquecimento, conta detalhes sobre o que esqueceu, como esqueceu, isso, às vezes, tem menos importância. Porque, se a pessoa é capaz de contar toda a história do seu esquecimento, é porque ela está se lembrando. Ela está se lembrando do que tem que contar. Então, na verdade, ela não está esquecendo tão severamente assim. Então, a primeira coisa é isso: a história da pessoa é muito importante. Existem alguns exames que são feitos no líquor. Como as pessoas falam, vamos tirar o líquido da espinha, tirar o líquor e fazer algumas dosagens. Esses exames são feitos somente em casos especiais. Não são exames rotineiros. São exames com técnica difícil, realização mais cara, situação mais complexa. Então, são só naqueles pacientes que têm a doença de início muito precoce, ou que têm uma doença que progride muito rapidamente, ou que têm uma doença com características diferentes do esperado. Essas pessoas, então, se submetem a esse exame. Portanto, não é um exame rotineiro ainda. Estamos em busca de exames no sangue, em que a gente pode detectar no sangue as proteínas que causam a lesão cerebral. Mas esses exames ainda não estão disponíveis. Eles estão ainda em fases de estudo e dosariam no sangue da pessoa as substâncias que causam a lesão cerebral. Outra maneira de auxiliar o diagnóstico é com imagens do cérebro. O principal exame é a ressonância magnética. Nós temos vários tipos de ressonância magnética que podem nos ajudar no diagnóstico. Não é um exame definitivo. Ele não fecha o diagnóstico, mas ajuda o médico a diagnosticar a partir do momento em que ele associa a história da pessoa, as informações que recebe, com os resultados de exames. Mas não há ainda um exame que, sozinho, diagnostique doença de Alzheimer. Você fala: “Ó, esse exame está positivo, logo a pessoa tem doença de Alzheimer.” Não, é um conjunto de informações, sendo que a história da pessoa é a mais importante, e esses exames de imagem são os que a gente tem no momento para fazer o diagnóstico.
Quais são os estágios do Alzheimer?
Dr. Carlos Fernando: A doença evolui, geralmente, em três estágios. Um estágio inicial, em que existe apenas uma perda de memória, em que a pessoa vai deixando de se lembrar de coisas que ela deveria fazer no dia a dia, deixando de lado algumas coisas que ela conseguia fazer. Esse estágio inicial, geralmente, dura três anos, mais ou menos, e é uma fase em que as pessoas acham que aquilo é normal. A pessoa que tem a doença acha que é um esquecimento normal, a família acha também que é alguma coisa própria do envelhecimento. Geralmente, é a fase em que as coisas são leves. A pessoa tem as suas falhas de memória, tem as suas falhas operacionais, mas consegue viver bem, consegue cuidar de si mesma. Essa fase, então, dura em torno de três anos. É no fim dessa fase que, geralmente, o diagnóstico é feito. A segunda fase é um agravamento dos déficits de memória e o surgimento de outros problemas, como o descontrole emocional, a desorientação da pessoa no espaço, em ambientes conhecidos; a pessoa passa a não gostar de sair de casa, a se perder na rua, a não conseguir voltar para casa sozinha. Surgem as dificuldades que chamamos de disfunções executivas, que são caracterizadas por dificuldade de fazer coisas que exigem planejamento, raciocínio, iniciativa, como fazer uma compras, tomar remédio por conta própria, sair de casa sozinha, usar um telefone, preparar uma refeição. Então vão surgindo essas dificuldades executivas ou dificuldades operacionais. Também há dificuldade de reconhecer pessoas, de reconhecer lugares, de se orientar no tempo, no espaço, de fazer um raciocínio adequado a respeito das coisas. Há também dificuldade de linguagem. A pessoa começa a falar e perde as palavras, não consegue completar as frases, não consegue se expressar bem, tem dificuldade de começar e manter essa conversa. Isso é uma fase intermediária, com o comprometimento da linguagem, do controle emocional, da função executiva. Em seguida vem a terceira fase, que é uma fase de dependência, em que a pessoa vai cada vez ficando mais incapaz de fazer as coisas do dia a dia, até mesmo tomar um banho, se locomover sozinha, usar o banheiro. Nessa fase, a dependência vai ficando cada vez maior. E, durante o trajeto dessas três fases, podem acontecer alterações do sono, alucinações, agressividade, alteração do comportamento social; tudo isso vai surgindo ao longo da evolução da doença. A duração das fases é que é muito variável. A primeira fase geralmente são três anos; a segunda e a terceira fase podem durar tanto dois anos quanto dez anos, então podem ser fases muito longas. Não dá para saber como vai ser, cada um evolui de um jeito. Há pessoas que progridem muito rapidamente e há pessoas que progridem muito lentamente. Não tem como fazer essa previsão. Só o acompanhamento da evolução da doença é que vai nos dizer em que fase a pessoa está.
Por ser uma doença que não tem cura, quais estratégias podem ser utilizadas para melhorar a qualidade de vida de quem já foi diagnosticado?
Dr. Carlos Fernando: Quem já tem a doença de Alzheimer, o que a gente tem que fazer é manter a funcionalidade da pessoa o maior tempo possível. O que vamos fazer é investir no que a pessoa consegue fazer. Se a gente tentar ensinar coisas novas, tentar fazer com que a pessoa aprenda a fazer coisas que ela nunca fez, vai ser muito difícil; a pessoa não tem condições de aprender coisas novas, de lidar com novidades, de lidar com notícias e tarefas novas, ela se perde muito no novo. A gente vai investir no que a pessoa sempre fez e conseguia fazer. Outra coisa importante é investir em atividades físicas. Os doentes de Alzheimer que conseguem fazer atividades físicas vão evoluir de maneira muito mais favorável do que aqueles mais sedentários, então o estímulo deve continuar. A questão toda é a medida desses estímulos, porque às vezes as famílias acham que têm que levar a pessoa para passear, para outros lugares, festas e reuniões familiares, e isso às vezes causa mais estresse no indivíduo. Então é aquilo que a pessoa consegue fazer; não deixar a pessoa inativa é o principal, porque quanto mais inativa, quanto menos a pessoa for capaz de fazer coisas, mais a doença vai avançar e incapacitar. Contudo, vai chegar o momento em que a pessoa vai precisar de cuidados básicos, de ser auxiliada para tomar banho, para se alimentar, trocar de roupa; então ela vai chegar a esse ponto de dependência, e é nessa hora que a presença dos cuidadores é tão importante. A pessoa vai perdendo a capacidade de fazer qualquer coisa por si mesma, então devemos investir no que a pessoa consegue fazer. Eu me lembro de uma paciente cuja família achou muito importante que ela aprendesse a fazer crochê porque ouviu dizer que é muito bom para a memória e para a demência, só que ela nunca tinha feito e ela detestava. Era um conflito constante na família porque queriam que ela fizesse crochê ou palavras cruzadas, frequentasse festas; eram coisas que ela nunca fez, para as quais não tinha habilidade, então ela deixava de fazer. Por outro lado, já vi pessoas em fases mais avançadas da doença de Alzheimer que continuavam trabalhando naquilo que sabiam. Eu tinha um paciente que era pedreiro e ele, mesmo sem saber sair da obra e voltar para casa, conseguia construir muito bem as paredes. Ele fazia muito bem o trabalho dele de pedreiro e só foi perder essa capacidade em uma etapa mais avançada da doença. Aquelas pessoas que são deixadas sem atividades são as que vão deteriorar mais depressa e dar mais trabalho ainda, porque quanto maior a dependência, mais trabalho para a família e os cuidadores.
Quais tratamentos existem atualmente? A ciência tem avançado em relação a novas terapias?
Dr. Carlos Fernando: Infelizmente, atualmente o tratamento que a gente tem é um tratamento com alcance muito limitado. Temos resultados ainda meio pobres. O que a gente tem hoje são medicamentos que diminuem os sintomas da doença. Esses remédios que a gente usa hoje para tratar a doença de Alzheimer não fazem com que a doença caminhe mais devagar, não fazem a doença regredir e não estabilizam a doença. A doença vai continuar avançando, evoluindo, e esses medicamentos diminuem os sintomas. É mais ou menos como a pessoa ter uma pneumonia e eu dar um remédio para a febre. Vai diminuir a febre, diminuir a dor no corpo, mas a pneumonia continua lá, continua avançando se eu não der um remédio para a pneumonia. O medicamento para impedir o avanço do Alzheimer ainda não existe. Os tratamentos que a gente tem hoje melhoram os sintomas, funcionam por um tempo curto de, em média, três ou quatro anos, e, em algumas pessoas, o resultado é muito pobre. O tratamento principal hoje é o de investimento, de diminuir a incapacidade que a doença pode causar e atuar em fatores de risco, porque nós sabemos que pessoas que têm hipertensão, colesterol alto, diabetes, depressão crônica têm mais risco de ter Alzheimer. Controlar o diabetes, o colesterol, a pressão alta, o excesso de peso e o sedentarismo são investimentos muito bons para que a doença não aconteça, mas, depois que já aconteceu, nós ainda não temos um tratamento bom. Existem já muitas pesquisas, já foram testados vários medicamentos que tentam limpar o cérebro das coisas que causam dano. Muitas pesquisas estão sendo feitas para encontrar uma substância que impeça a progressão da doença, mas ainda nada foi produzido de maneira definitiva. Inclusive, há uma dificuldade de quando e como começar o tratamento, porque as lesões do Alzheimer começam até 20 anos antes dos sintomas. E como nós vamos identificar essas pessoas para tratá-las antes da doença começar a aparecer? E, depois que já houve a lesão cerebral bem instalada, o resultado dos tratamentos é pequeno, a gente não consegue fazer com que haja grande melhora. Os estudos ainda estão em andamento para uma medicação que modifique a doença. Nós temos esperança de que alguma coisa possa ser feita; já há alguns medicamentos que foram lançados nos últimos anos nos Estados Unidos, mas muitos não puderam ser usados porque provocavam outros problemas, como hemorragia cerebral e outros tipos de danos. No momento, estamos engatinhando nessa questão de medicamentos, estamos mais no controle dos fatores de risco e nos investimentos que fazem com que a doença não seja tão agressiva para as pessoas.
